Eleições
Entenda a regra do segundo turno, como as pesquisas simulam esse cenário e por que a transferência de votos dos candidatos eliminados é o maior desafio para os institutos de pesquisa.
Para quem acompanha eleições presidenciais brasileiras, o segundo turno é o cenário central em quase todo ciclo desde 1989. Mas como funciona exatamente essa regra? E por que as pesquisas de segundo turno são, em geral, menos confiáveis do que as de primeiro turno?
Nas eleições presidenciais brasileiras, um candidato só vence no primeiro turno se obtiver mais de 50% dos votos válidos (excluídos brancos e nulos).
Se nenhum candidato atingir esse patamar, os dois mais votados disputam um segundo turno, realizado três semanas depois. No segundo turno, vence quem obtiver a maioria simples dos votos válidos.
Essa regra existe desde a Constituição de 1988 e foi aplicada em todas as eleições presidenciais desde a redemocratização. Em toda a história da Nova República, apenas Fernando Henrique Cardoso venceu no primeiro turno — em 1994 e 1998.
A porcentagem de 50% aplica-se aos votos válidos, não ao total de votos. Isso exclui brancos e nulos do denominador, tornando o limiar ligeiramente mais fácil de atingir do que parece — mas ainda fora do alcance na maioria dos ciclos competitivos.
As pesquisas eleitorais trabalham com dois cenários de segundo turno: o emparelhamento dos dois candidatos com maior intenção de voto no primeiro turno.
Por exemplo, se três candidatos têm chances reais de chegar ao segundo turno (A, B e C), os institutos publicam os três pares possíveis: A × B, A × C e B × C. O instituto testa cada par separadamente na mesma rodada de entrevistas.
Isso cria uma diferença importante em relação às pesquisas de primeiro turno:
Essa restrição artificial pode mover significativamente os números. Um eleitor que no primeiro turno diria votar no candidato C pode, no segundo turno simulado, migrar para A ou B — ou declarar que votaria branco.
A maior diferença entre pesquisas de primeiro e segundo turno é a transferência de intenção de voto dos candidatos eliminados.
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Em 2022, Ciro Gomes obteve cerca de 3% no primeiro turno. Onde foram esses votos no segundo turno? Estudos de migração de votos mostram que eleitores de Ciro dividem-se de forma não-linear entre Lula e Bolsonaro — com fatores ideológicos, regionais e de classe influenciando a divisão.
O problema para os institutos é que essas migrações são difíceis de prever. Um eleitor que diz que votará branco no segundo turno simulado pode, na cabine real, escolher um dos dois candidatos. Eleitores indecisos em pesquisas tendem a se decidir de forma mais concentrada do que o esperado.
Esse efeito explica por que as margens finais no segundo turno frequentemente surpreendem — não porque a intenção de voto mudou, mas porque as pesquisas de segundo turno capturam mal as transferências de voto.
| Ano | 1º Colocado (1T) | 2º Colocado (1T) | Vencedor do 2T | Margem | |-----|-----------------|-----------------|----------------|--------| | 1994 | FHC (54,3%) | Lula (27,0%) | — (venceu no 1T) | — | | 1998 | FHC (53,1%) | Lula (31,7%) | — (venceu no 1T) | — | | 2002 | Lula (46,4%) | Serra (23,2%) | Lula | 61,3% × 38,7% | | 2006 | Lula (48,6%) | Alckmin (41,6%) | Lula | 60,8% × 39,2% | | 2010 | Dilma (46,9%) | Serra (32,6%) | Dilma | 56,1% × 43,9% | | 2014 | Dilma (41,6%) | Aécio (33,6%) | Dilma | 51,6% × 48,4% | | 2018 | Bolsonaro (46,0%) | Haddad (29,3%) | Bolsonaro | 55,1% × 44,9% | | 2022 | Lula (48,4%) | Bolsonaro (43,2%) | Lula | 50,9% × 49,1% |
A eleição de 2022 foi a mais disputada da história democrática brasileira — menos de 2 pontos percentuais separaram os candidatos no segundo turno.
Em todos os segundos turnos desde 2002, o candidato que liderou o primeiro turno venceu o segundo. Mas a margem de vitória no segundo turno foi sistematicamente maior do que a vantagem no primeiro turno — exceto em 2014 e 2022, anos de polarização extrema.
O maior problema das pesquisas de segundo turno não é a metodologia em si — é a incerteza genuína sobre como os votos dos candidatos eliminados serão distribuídos.
Pesquisas de intenção de voto de segundo turno medem uma intenção hipotética, não uma escolha real. O eleitor é colocado em um cenário que ainda não existe, com informações que ainda não tem (resultado final do primeiro turno, eventuais alianças anunciadas, apelos dos candidatos eliminados).
Quando esse cenário se torna real, a dinâmica muda:
Por isso, pesquisas de segundo turno publicadas com mais de duas semanas de antecedência têm poder preditivo menor do que pesquisas de primeiro turno no mesmo período. As publicadas nos três dias anteriores ao pleito, porém, historicamente se aproximam muito do resultado final.
Para entender melhor o contexto: